Carta de António Joaquim Ferronha – professor para António Ferreira Gomes - bispo do Porto exilado informando que no “…domingo de Ramos…” desmaiou “…os pulmões e o coração terem cessado de trabalhar em Kisangani…ficando uma semana entre a vida e a morte…” mas recuperou todavia “Sinto-me bastante fraco. Terei que resolver estes problemas orgânicos ainda.”; reporta que se encontra a residir num “…apartamento…com o rio Congo por trás da janela e Brazzaville da outra republica em face.”
Comenta que “…a Igreja em Portugal em vez de progredir, marcha para as tradições medievais.”; relata que “Os angolanos por aqui continuam a matarem-se uns aos outros, antes mesmo de ocuparem o poder.”; conclui solicitando a bênção do bispo do Porto, Kisangani (Stanleyville) - República Democrática do Congo, 1967-04-19
Carta de Amélia Eugénia – esposa de Manuel Duque Vieira – professor para António Ferreira Gomes - bispo do Porto exilado descrevendo a situação profissional e académica dos seus filhos: uma filha a trabalhar Nampula – Moçambique “…que acompanhou o marido. Ela regente agrícola está empregada nos algodões…”; reporta que a “Margarida assistente social empregada no ministério da economia…”; acrescenta “A mais pequena…anda…(como) educadora de infância; o Eugénio continua a estudar e nas férias pretextou ficar a prepara-se para os exames, mas "ficou a namorar"
Conclui expressando “Espero que sejamos lembrados nas orações de V.ª Ex.ª…”, 1968-04-13
Carta de António Joaquim Ferronha – professor para António Ferreira Gomes - bispo do Porto exilado relatando que a detenção da sua família por parte da PIDE cessou e já se encontram em Stanleyville(Kisangani) através dos esforços da “…Cruz Vermelha Internacional.”; todavia ainda suspeita que continua a ser espiado pela “…PIDE…”; relata vários aspetos sobre a resistência angolana, especialmente sobre os que se encontram no Congo mas sem apoios financeiros, afirma que “A situações congolesa mantêm-se mais ou menos com tendência favorável aos elementos centro e direita.”; indica que “…não sei qual será a saída desta nação que não é nação senão artificialmente.”, caracteriza os congoleses nestes termos“…a alma do congolês continua a mesma: desleais, mulheres, cerveja…os escândalos de desvios de fundos públicos são… corrente e banal.”; relata que em Kinshasa (Léopoldville) - Congo “…elementos do M.P.L, mestiços sobretudo, continuam, desiludidos, a regressar a Angola.”
Conclui informando que o seu filho mais velho, 10 anos, quer ser médico-missionário.”, Universidade Livre do Congo, Stanleyville (Kisangani), 1966-04-05
Carta de António Joaquim Ferronha - professor para António Ferreira Gomes – bispo do Porto exilado informando que “…levo uma vida de eremita na Université Libre du Congo…”; relata que esta universidade foi obrigada a exilar-se “…devido às razões de insegurança do Nordeste e…pediu acolhimento nos muros da Universidade de Lovaniram…” afirma que tem havido cooperação entre as duas instituições universitárias. Faz várias referências aos projetos de Holden.
Refere que na República Democrática do Congo tem acontecido “A guerrinha casualmente justa, mas medialmente cruel…”; afirma que a “…PIDE comprou as autoridades congolesas do Baixo-Congo…” no sentido de capturarem membros do “…M.P.L.A – Movimento Popular de Libertação de Angola…” refugiados no Congo; reflete sobre a situação política interna e externa portuguesa “É em Angola que se encontram as bases financeiras e económicas do Salazar do viciado regime; é em Angola que se encontra o maior exército português de todos os tempos; é em Angola que se encontram as melhores condições militares para a guerrilha. Assim seria em Angola que a platónica oposição o deveria atacar…Infelizmente Delgado foi-se meter em casa do diabo (os árabes) que são o inimigo…de todo o Ocidente.”
Informa que “A minha mulher e meus dois filhos (agora com 9 e 6 anos) estão dolorosamente retidos como «reféns», desde há dois anos, pela PIDE em Angola…”; solicita que se lembre deles nas suas orações; acrescenta que “Há…23 presos em Angola a quem dou de comer e nem sempre posso ajudar conforme queria.”, Université Libre du Congo, Kinshasa (Léopoldville), 1965-02-14